Publicado em 25/02/2018

Divulgação científica dentro da universidade

É incrível notarmos que a divulgação científica no Brasil ainda hoje representa um panorama desfavorável. Essa área importantíssima responsável por democratizar o conhecimento produzido nas universidades tem enfrentando enormes desafios para ser reconhecida como parte fundamental integrante da relação entre a ciência e a sociedade.

Felizmente existem iniciativas dentro das próprias universidades que buscam ampliar a disseminação da ciência e do conhecimento. Através de estudos da percepção que a comunidade apresenta sobre variados temas na área da saúde em veículos de mídias sociais (como o Facebook, Youtube, Podcasts, Twitter, Pinterest), a Jornalista Científica Claudia Jurberg promove a produção de materiais voltados para a sociedade que têm como alvo quebrar a barreira de comunicação que existe entre a ciência e a comunidade brasileira. Para isso, a pesquisadora conjuga a criação de materiais didáticos, conteúdo e produtos que despertem interesse no público geral.

Claudia Jurberg é formada em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e Dra. em Educação, Gestão e Difusão em Biociências pelo Programa de Pós-Graduação em Química Biológica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente Claudia atua orientando alunos de pós-graduação de Educação em Biociências e Saúde (na Fiocruz) e Educação, Gestão e Difusão em Biociências (na UFRJ). Claudia especializou-se em divulgação científica, saúde pública, câncer, biologia experimental e oftalmologia. Ela conversou com o Portal sobre o atual cenário da divulgação científica no Brasil.

Leia a seguir!

 

PORTAL BIOQMED. De acordo com seu estudo ”Beyond the Drama: the Beautiful Life in News Feeds on Cancer”, o Brasil representa 10% da comunidade do Facebook mundialmente. Dada a influência que as redes sociais representam no cotidiano da população e como essa ferramenta pode ser útil para ampla comunicação, quais evidências puderam ser analisadas sobre a percepção que as pessoas têm sobre o câncer em seu estudo? Como elas podem ser aplicadas nas estratégias de saúde?

CLAUDIA JURBERG. Nos meus primeiros seis anos, logo que cheguei à UFRJ, estudei o tema câncer nas mídias e vi como essa doença era abordada pelos veículos da mídia tradicional. Eu observei que o assunto era evitado nos fins de semana ou época de grandes festividades. Com isso, entramos em contato com jornalistas e descobrimos que isso acontecia porque o câncer era e ainda é considerado uma má notícia.

No período de 2006 a 2012, estudamos o câncer nas mídias sociais e selecionamos dois casos no Twitter como alvos de estudo, a saber: o câncer do ator Reinaldo Gianecchini e o da Ex-Presidenta Dilma Roussef, que eram o mesmo tipo de câncer. Depois estudamos o câncer no Facebook e a princípio foram três páginas sobre câncer escolhidas por terem grande número de seguidores (80-200 mil seguidores), nas quais analisamos todos as suas postagens durante 6 meses ao longo do ano de 2014. No ano passado, analisamos mais 6 páginas sobre câncer com o objetivo de investigar se o padrão que tínhamos encontrado antes permaneciam válidos e se ainda publicavam os mesmos tipos de postagens. Conseguimos identificar e enquadrar os posts em quatro categorias.

Após isso, analisamos o que as pessoas estavam comentando e porquê 200 mil pessoas seguiam as páginas de câncer. Será que as pessoas tinham as mesmas visões negativas que a imprensa transmite sobre o tema? A imprensa associa o câncer à dor, morte, perda e sofrimento. A imprensa trata o câncer como ‘’o fulaninho que perdeu a luta contra o câncer’’, mas ninguém fala dessa forma das doenças cardiovasculares, que causam até mais mortes, ou sobre a AIDS — que não tem cura. Nós percebemos que a percepção das pessoas que seguem essas páginas é muito diferente, e são majoritariamente pessoas que tem familiares com a doença ou estão em tratamento. O que vimos é que existe uma questão fortíssima de fé, esperança e uma percepção muito mais positiva do que a que observamos na mídia tradicional.

 

PORTAL BIOQMED.  A integração social é um dos pontos fundamentais para uma realidade de direitos mais igualitários no mundo. As atuais políticas públicas educacionais das universidades atendem a devida inclusão, integração e necessidades de estudantes com deficiência visual que necessitam de tecnologia assistiva? E apesar das limitações, qual importância tem sido atribuída as mídias sociais em jovens com deficiências visuais?

CLAUDIA JURBERG. Primeiro quero comentar esse é um projeto de uma aluna minha de doutorado da Fiocruz que é professora do Instituto Benjamin Constant. Ela trabalhou antes comigo como aluna de mestrado e na época trabalhava em uma escola pública na Ilha do Governador. Após ser aprovada como professora no Instituto Benjamin Constant decidimos fazer seu projeto de doutorado nessa área.

Posso afirmar (não diretamente, mas de ouvir falar) que não existem programas na universidade para acessibilidade de deficientes visuais ou auditivos.

Se um surdo for aprovado para a UFRJ, onde está o intérprete para acompanhá-lo nas aulas? Se um aluno com essa deficiência for aprovado para Biomedicina, outro para a Biologia e outro para Farmácia, precisaremos de três intérpretes diferentes já que muitos surdos não fazem leitura labial.

Quais os materiais de áudios descritivos temos para o cego que for aprovado para UFRJ? E o livro? Como ele vai acessar esse livro? Nós estamos a anos-luz de distância do que seria uma universidade inclusiva e acessiva! Existem iniciativas, como as da professora Vivian Rumjanek, que é chefe do laboratório e tem um enorme trabalho para que possamos garantir acessibilidade para os surdos. Mas é muito complicado. Se um surdo for aprovado é um problema, se três passarem é um grande problema. Não temos infraestrutura para pessoas com deficiências físicas, o elevador muitas vezes está quebrado. Qual a acessibilidade de um cadeirante alcançar os andares mais altos dos edifícios da universidade? Praticamente nenhuma…

 

PORTAL BIOQMED. O número de deficientes visuais seria um fator importante que estaria contribuindo para a falta de atenção das instituições em relação a esse público. Por que essas pessoas não chamam a atenção da sociedade?

CLAUDIA JURBERG. A sociedade não fornece oportunidade para eles. Por exemplo, alguns alunos cegos que estudamos no Instituto Benjamin Constant vão para o Colégio Pedro II no ensino médio e depois, acredito, eles nem tentam o vestibular. Como eles farão uma prova como a do ENEM? Se eles forem aprovados, onde estarão os materiais acessíveis nas universidades? O estudo que fizemos no Instituto Benjamin Constant tinha o objetivo de entender como era o uso das mídias sociais por esses cegos: eles usam?, como usam?, é possível transmitir conteúdos de ciência para eles através delas? Foi um trabalho deslumbrante! Nós criamos um grupo no WhatsApp para ver se funcionava a transmissão do conhecimento e também uma oficina de conhecimento para eles. Esses alunos frequentavam a oficina uma vez por semana, indo para o laboratório de informática, onde tinham a missão de pesquisar algum assunto de saúde que tivessem interesse. Após isso, debatíamos os assuntos no grupo. Eles se mostraram muito interessados e conectados, apresentando embasamento nas pesquisas. Quando surgiam alguns temas mais complexos, nós convidávamos profissionais e pesquisadores para discuti-los, como o bullying — que foi um tema surgiu um dia porque uma das participantes estava sofrendo bullying. Outros temas também foram discutidos com profissionais, como sexualidade e nutrição alimentar.

No ano passado, eu ministrei um curso para os técnicos do CNPq que avaliam os relatórios de produtividade de todos os editais que são abertos do CNPq. Esses relatórios ficam arquivados e são pouco divulgados. Durante uma semana, ministrei um curso para ensinar como transformar e divulgar esses resumos em notícias. Estando lá descobri algo muito curioso: a pessoa que administra a conta do Twitter do CNPq é um funcionário cego! Então, acredito sim que existe a possibilidade de você abrir novas áreas de trabalho para as pessoas com deficiência.

 

PORTAL BIOQMED. Atualmente, você é coordenadora do Núcleo de Divulgação do Programa de Oncobiologia da UFRJ. Quais projetos são desenvolvidos no Núcleo e quais as abordagens utilizadas?

CLAUDIA JURBERG. Primeiro acho interessante explicar o que é o Programa de Oncologia. Ele é uma rede existente no Rio de Janeiro que teve início no ano de 2000 (com 13 pesquisadores) e hoje conta com uma rede de colaboração de cerca de 250 pesquisadores de todas as instituições públicas do estado do Rio de Janeiro, como a UFRJ, a UFF, a UFRRJ, a UENF, o Instituto Estadual do Cérebro, a Fiocruz e o INCA. São pessoas interessadas pela temática câncer que estão espalhadas nessas instituições.

Nós ajudamos essas pessoas a se comunicarem e a saberem o que as outras estão fazendo para assim estabelecerem colaborações. Para isso, temos uma comunicação interna com esses membros, que é uma Newsletter publicada mensalmente e que, durante os últimos 15 anos, foi publicada ininterruptamente. Além disso, temos a comunicação deste grupo com a própria sociedade, e durante muitos anos essa comunicação foi realizada através da mídia através de estratégias de assessoria de imprensa, em que os pesquisadores concediam entrevistas para a grande mídia.

Nos últimos tempos, depois que surgiu a Web 2.0 e as mídias sociais, começamos a empreender estratégias de comunicação deste grupo pelas mídias sociais. Esse programa hoje tem dois sítios na internet: um institucional, que é o site do Programa de Oncobiologia e está atualmente fora do ar porque foi invadido por um hacker — desde dezembro não conseguimos colocá-lo de volta no ar. Além dele, temos também o Museu Virtual do Câncer (Acubens) onde temos muitos jogos e histórias em quadrinhos, ou seja, instrumentos de comunicação lúdicos para nossa população alvo.

Nós também estamos nas mídias sociais: no Facebook, no Twitter, no Pinterest e em um canal no Youtube. O que nós procuramos é divulgar ciência através desses instrumentos. Vídeos como os da série ‘’Câncer em um minuto’’, onde nós entrevistamos um pesquisador e ele tem um minuto para contar para a sociedade o que faz. No Pinterest, durante um ano e meio nós fizemos as histórias em quadrinhos de Thiago & Mila, que foi produzido com duas alunas de mestrado que tínhamos em nosso laboratório. Todas as histórias estão no site Acubens, nessas histórias Thiago & Mila são adolescentes que praticam uma série de atividades, vão para a escola, festas, fumam cigarro, fazem tatuagens… e dentro desses cenários nós discutimos os riscos associados ao câncer ou não. Essa história em quadrinhos ganhou um edital da FAPERJ e ficou sendo exposta no museu de Caxias por um ano e meio. Nesta exposição nós criamos a casa imaginária da Mila, com duzentos metros quadrados e os cômodos foram divididos com os cenários da história dos personagens. Essa exposição será exibida e inaugurada em 4 de abril na Casa da Ciência, e no segundo semestre deste ano ela vai para a Fiocruz. Essa exposição foi produzida também para cegos, sendo totalmente áudio descrita. O deficiente visual recebe um iPod e tem o áudio com a descrição de cada painel.

Um outro projeto que produzimos foram vídeos de animação disponíveis no Youtube, com mais de 60 mil acessos. Neles falamos sobre HPV, fumo, exposição ao sol, álcool, câncer, alimentos processados e câncer. Então, fazemos ações de comunicação para esse grupo e ações de comunicação desse grupo para a sociedade. E isso tudo que eu faço é baseado em pesquisas. Todas as minhas abordagens e ferramentas utilizadas são baseadas em pesquisas, por exemplo, se vou produzir material para o HPV, primeiro preciso saber o que os jovens sabem sobre HPV. Nós começamos a fazer isso em 2009 e até então não havia vacina, somente nas clínicas privadas. Vimos que de fato os jovens não sabiam nada e, assim, realizamos uma pesquisa com 400 jovens e depois fomos para as praias e ampliamos esse número para 900 banhistas afim de descobrir o que eles sabiam sobre pintas malignas, com os resultados obtidos produzimos vídeos baseados no que não sabiam. Todos os nossos produtos são baseados no que observamos na falta de comunicação. Os primeiros vídeos renderam uma tese de doutorado da minha aluna Marina. Também produzimos um livro jogo, um RPG, que é o Encruzilhadas. Ele foi produzido com a nossa aluna de iniciação científica. É um livro de referências que não deve ser lido de forma linear, nele o leitor cria seu próprio personagem que pode ser uma menina, menino ou gay. Esse personagem tem atributos (ele bebe, fuma, tem bons conhecimentos…) e ao longo do livro o leitor acredita que a ideia é alcançar a aprovação do vestibular, mas somente no final ele descobre que é sobre fatores de risco e câncer. O leitor vai escolhendo caminhos ao longo do livro que nunca serão os mesmos. Ele foi ilustrado por uma aluna de Belas Artes da UFRJ, a Carla Zucchi, a mesma que criou Thiago & Mila.

Em suma, é isso que fazemos no Núcleo. Produzimos pesquisa e os resultados das pesquisas viram artigos científicos e material para produção de novas abordagens de comunicação interna e externa. Nos últimos anos temos estudado o câncer nas mídias sociais, tendo o jovem como o público alvo, porque geralmente o jovem pensa que câncer só acomete idosos, mas nessa fase vários hábitos adotados por ele, como fumar e beber, são fatores de risco para o câncer.

 

PORTAL BIOQMED. Como você vê a divulgação científica no século XXI? Qual a importância da internet e das mídias sociais?

CLAUDIA JURBERG. Eu trabalho com jornalismo há 35 anos e quando comecei era um mundo analógico, escrevíamos as matérias em máquina de escrever e cada erro que cometíamos jogávamos o papel no lixo e recomeçávamos tudo. A nossa janela para o mundo era a mídia tradicional, mas com a internet tudo mudou, desde o processo de vender uma matéria até a produção. Cargos que existiam na impressa como chefe de reportagem não existem mais. Hoje isso mudou radicalmente, todo pesquisador tem acesso a mídia tradicional e além disso ele tem um enorme poder de divulgar seu trabalho nas mídias sociais. O assessor de impressa não é necessário para ele. A minha vida toda eu fui assessora de impressa, portanto, eu posso ajudá-lo se ele precisar, criando pontes com a mídia, mas ele também tem acesso a isso. As coisas são muito mais democráticas. Do século passado para esse século a divulgação científica mudou radicalmente, todo mundo hoje é mídia.

 

PORTAL BIOQMED. E existem iniciativas que visam atrair a atenção dos jovens para conteúdos de qualidade nas mídias sociais, visto que é necessário saber filtrar o conteúdo em meio a infinidade de materiais publicados?

CLAUDIA JURBERG. Foi isso que me perguntaram na USP essa semana. O que eu acredito é que exista uma seleção natural: o que for bom irá perdurar e o que não for irá acabar porque as pessoas comentam e têm a liberdade de dizer ‘’você está falando uma grande bobagem’’. Não existe exatamente um sensor, a sociedade é o próprio filtro.

 

PORTAL BIOQMED. Há quem diga que ultimamente os próprios artigos científicos estão adotando um formato mais geral, permitindo que mesmo a comunicação das especialidades científicas possa atingir um público mais amplo. Você acredita que a comunicação científica avança nessa direção ou que o público leitor de artigos continua sendo uma extrema minoria de especialistas?

CLAUDIA JURBERG. Acredito que exista uma guerra das editoras científicas e alguns têm investido em outros formatos: pode-se divulgar o artigo de forma tradicional, mas algumas revistas estão investindo em vídeos sobre esses artigos nos quais os autores comentam um resumo de sua divulgação. Isso tem acontecido porque falar sobre ‘’a curva S da membrana da célula que está presente no câncer da unha’’ é restrito, quantas pessoas irão ler isso? Quantas pessoas irão se interessar por um detalhe do detalhe do detalhe? As pessoas têm interesse em ciência e pesquisa, mas elas querem um conteúdo que seja acessível. Logo, ou os pesquisadores se adaptarão a essa nova forma de comunicação ou não sei para onde iremos caminhar, porque ficará restrito a uma minoria que terá um público muito exclusivo, que será a dos próprios pesquisadores.

Fora do Brasil existem países em que a cultura da divulgação é muito mais estabelecida e em outros não. Mas não adianta mais focar no detalhe do detalhe do detalhe, porque as pessoas não entendem e as vezes a própria comunidade científica não entende. Os pesquisadores especializam-se de uma forma que torna a compreensão difícil.

 

PORTAL BIOQMED. Quais os entraves burocráticos que você vê hoje na universidade para que trabalhos de divulgação científica possam ser melhor avaliados e conseguir financiamento? Afinal, no seu ponto de vista, a divulgação científica é educação, gestão, extensão ou pesquisa?

CLAUDIA JURBERG. Existem muitos entraves burocráticos na universidade para pouca execução. Lamento muito que a gente gaste um tempo enorme preenchendo formulários, recebendo normas de como participar, de como fazer, de onde fazer… e muitas vezes falta infraestrutura. Eu particularmente estou cansada dessa falta de infraestrutura da universidade que não ajuda o pesquisador nem o divulgador. Por um lado você tem uma liberdade criativa muito interessante e isso me atrai, mas pelo outro a falta de infraestrutura e burocracia são dois pontos que me desanimam demais. Tenho que preencher formulários, fazer compras, prestar contas… eu passo a maior parte do meu tempo trabalhando em prol da burocracia e a pesquisa que eu quero fazer é feita com o que me resta de tempo, que é muito pouco. A sensação que eu tenho é que ninguém facilita na universidade.

E acredito que a divulgação científica é tudo isso que foi mencionado: se o objetivo é fazer pesquisa sobre um certo tema na mídia tradicional, isso pode ser feito. Ela é extensão, porque pode ser direcionada para a sociedade; e ela pode ser ensino, porque posso ministrar uma disciplina sobre isso.

 

Recomendamos fortemente a leitura dos artigos da autora:

Beyond the Drama: the Beautiful Life in News Feeds on Cancer” no site do periódico através do endereço eletrônico: https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs13187-016-1094-2

Teenagers with visual impairment and new media: A world without barriers” no site do periódico através do endereço eletrônico: http://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0264619617711732

To read or not to read? Identifying communication patterns in three cancer-related Facebook pages” no site do periódico através do endereço eletrônico: https://www.cogentoa.com/article/10.1080/23311886.2017.1331816

 

 

Por Larissa Haerolde e Francisco Prosdocimi para o portal BIOQMED.