Publicado em 24/07/2017

Professor Paulo Ferreira é promovido à classe Titular

No dia 28 de junho (2017), o Prof. Paulo Cavalcanti Ferreira (IBqM) apresentou sua conferência e defesa de memorial para sua promoção a Prof. Titular.

Paulo é professor da UFRJ há 21 anos e até então ocupava o cargo de professor associado, ministrando disciplinas de Bioquímica, Epigenética e Genética para Biociências, nos cursos de Medicina, Odontologia e Farmácia, tendo já orientado 16 alunos de doutorado e 11 alunos de mestrado.

Nascido no Rio de Janeiro, o Prof. Paulo é graduado em Agronomia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1982), mestre em Genética pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1985) e doutor em Biotecnologia pela Rijksuniversiteit Gent (Bélgica, 1994). Possui pós-doutorado realizado em Epigenética e Genômica de Plantas pelo Cold Spring Harbor Laboratory (EUA, 2006).

É atualmente Professor Titular da UFRJ e Editor Chefe da Revista Científica Biotechnology Research and Innovation e Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Biotecnologia (SBBiotec).

A conferência aconteceu no auditório Hélio Fraga e fizeram parte da banca examinadora, como membros titulares, os Profs. Rafael Linden  (Titular, UFRJ – presidente), Elizabeth Pacheco Batista Fontes (Titular, UFV), Maria de Fátima Grossi de Sá (Titular, Embrapa), João Paulo de Biaso Viola (Titular, INCA) e a Profa. Dra. Marie-Anne van Sluys (Titular, USP)

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Banca composta por nomes ilustres da biologia molecular brasileira aprova Prof. Paulo Ferreira como Prof. Titular da UFRJ (28/06/2017). Foto por Profa. Lina Zingali.

 

O Prof. Paulo Ferreira foi convidado pelo nosso PORTAL para nos contar um pouco mais sobre sua carreira acadêmica!

 

PORTAL BIOQMED. Bom dia Prof. Paulo! Queremos parabenizá-lo pela sua aprovação como Professor Titular! Nossa primeira pergunta é: por que a ciência?

PROFESSOR PAULO FERREIRA. Eu fiz vários estágios durante a minha graduação em Agronomia e o único estágio que eu realmente gostei e que me fez inclusive seguir Agronomia foi o estágio que fiz no Instituto Agronômico do Paraná, que é um instituto estadual de pesquisas. Quando fiz esse estágio e voltei para meu último ano na universidade, a primeira coisa que fiz foi procurar um estágio em ciência. Eu entrei na faculdade querendo ser agrônomo e eu não sabia exatamente o que era ser agrônomo… pensava até então que agrônomo era trabalhar em fazenda e essas coisas. Fiz estágios em fazendas e extensão rural, mas nada disso me agradou, somente a ciência.

 

PORTAL BIOQMED. E o que porquê do interesse em cursar Agronomia?

PROFESSOR PAULO FERREIRA. Eu tinha um avô e uma avó que tinham uma fazenda no interior de Minas, um lugar chamado Cambuquira. E eu ia para lá em todas as minhas férias e gostava muito, isso foi o que realmente despertou meu interesse em fazer Agronomia, embora Agronomia fosse algo completamente diferente do que visitar a fazenda nas férias, por isso quando cheguei na rural pensei ”– Não é bem isso, não vou andar a cavalo aqui”.

 

PORTAL BIOQMED. Em sua trajetória científica, quais foram os professores que mais te inspiraram em sua carreira acadêmica?

PROFESSOR PAULO. O primeiro deles foi o Prof. Luiz Antonio Barreto de Castro, ele era Prof. da UFRRJ e dava aulas de fisiologia de sementes. Foi com ele que fiz meu primeiro estágio, o qual continuei até o fim da minha graduação. Depois o meu orientador do mestrado, o Prof. Carlos Morel, que é pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz me ajudou muito e teve grande importância para o meu mestrado. No meu doutorado na Bélgica, o Prof. Marc Van Montagu foi também muito importante como orientador, eu fiz meu doutorado no Laboratório de Biologia Molecular de Plantas, que foi basicamente um dos primeiros laboratórios do mundo a produzir plantas transgênicas, e eu realmente achei ele uma pessoa genial. E finalmente, o meu supervisor em Cold Spring Harbor, porque a partir do momento que fui trabalhar com ele minha carreira tomou uma outra direção, porque incorporei a parte de epigenética no meu trabalho  que até hoje continuo fazendo.

 

PORTAL BIOQMED. A sua história acadêmica é marcada pela experiência  adquirida em diferentes universidades (Brasil, Bélgica e EUA). Quais as maiores vantagens e os maiores desafios que esses diferentes ambientes científicos te apresentaram?

PROFESSOR PAULO. Vamos começar pelos desafios: eu estudei Agronomia em uma época que não se tinha genética molecular, a genética era somente uma genética quantitativa, era simplesmente estatística. Não se tinha nada de genética molecular, meu primeiro maior desafio foi quando fui fazer meu mestrado em um laboratório de ponta na Fiocruz onde era o começo da biologia molecular, mas era um começo consideravelmente avançado. Os pesquisadores dali já tinham realizado o doutorado fora e voltado. Eu passei alguns meses pensando que estava em um lugar onde as pessoas falavam sânscrito, eu não entendia uma palavra do que falavam… Esse foi meu maior desafio. Isso se repetiu mais ou menos no meu sabático, porque a epigenética é uma linguagem nova e para mim não foi uma linguagem muito fácil. Mas nisso me adaptei um pouco mais rápido. No doutorado, quando fui para Bélgica não senti um desafio muito grande, porque eu já tinha mais experiência e embora meu projeto não fosse um muito simples, deu certo logo no começo. Ao voltar ao Brasil houve um pequeno desencontro, porque eu ia para o departamento de genética na Biologia, mas acabei vindo para o IBqM trabalhar. Aqui a primeira pessoa procurei foi o Leopoldo porque sabia que ele colaborava com o Paulo Arruda (Unicamp), que trabalhava com plantas. Depois fui para o Jardim Botânico e nesse período fui para os EUA, onde passei dois anos. O meu maior desafio foi passar de Agrônomo que não sabia nada de Biologia Molecular para um Agrônomo que sabe um pouquinho.

Em relação às vantagens, vejo que tudo que acontece em nossa vida, seja para o bem ou para o mal, nos deixa uma marca. E quanto mais você anda mais marcas tem, mais pessoas conhece, tem acessos às diferentes tecnologias, culturas científicas e conhece amizades que permanecem para a vida toda. Como já morei fora do Brasil três vezes, especialmente no doutorado, fiz amizades no mundo inteiro. Tive uma mistura da experiência científica com a experiência da vida pessoal  e isso foi muito importante.

 

PORTAL BIOQMED. Quais as suas principais linhas de pesquisa?

PROFESSOR PAULO. Eu trabalho com três áreas diferentes, não existe exatamente uma conexão entre elas, mas são frutos de oportunidades. Primeiro eu trabalho com a continuação do que eu já fazia no doutorado, que é o estudo da divisão celular em plantas, tentando não só compreender o mecanismo mas também como esse processo da divisão celular se relaciona com o desenvolvimento da planta. Isso é importante porque as plantas, ao contrário dos animais, têm grande parte das divisões celulares mais formativas que organogênicas. A planta tem uma semente e nela só tem a ponta da radícula, o eixo apical e alguns órgãos de reserva, a planta passa a vida inteira fazendo divisões e se diferenciando, formando folhas e caules. Isso é extremamente importante, entender quando a célula da planta vai se manter dividindo e quando ela vai se diferenciar.

A outra área na qual trabalho se deve a um encontro que tive com o pessoal do Jardim Botânico logo que voltei para o Brasil, começamos a colaborar usando marcadores moleculares. O projeto de interesse inicial era estudar as estruturas genéticas de populações, principalmente populações da Mata Atlântica. Nós trabalhamos com pau-brasil e com palmito, utilizando diferentes abordagens, e recentemente estamos trabalhando com transcriptoma em modelos de copaíba e jatobá, coletando plantas de diferentes ambientes, como Cerrado e Mata Atlântica, a fim de identificar assinaturas de adaptação nos genes.

E finalmente, os últimos projetos que venho trabalhando são derivados do meu sabático ligados à epigenética e genômica, trabalho com cana-de-açúcar e com milho, e o interesse é entender como os pequenos RNAs são regulados, tentando obter informações que possam nos auxiliar a conhecer quem são os alvos desses pequenos RNAs. São três áreas que não se tocam muito, mas que estou trabalhando atualmente. Neles usamos ferramentas de botânica, genômica, epigenética e biologia celular.

 

PORTAL BIOQMED. Em todo esse tempo como pesquisador, quais resultados e descobertas mais te deixaram intrigado (quais principais descobertas)?

PROFESSOR PAULO. As primeiras descobertas mais interessantes foram evidentemente no começo do meu doutorado, durante ele conseguimos descrever molecularmente os componentes do ciclo celular de plantas pela primeira vez e mostramos como eles são regulados, mostramos que se afetarmos a regulação deles temos mudanças importantes no desenvolvimento, no entanto, as plantas possuem enorme plasticidade, então mesmo que a gente modifique a regulação de alguns desses genes que são chave, as plantas se adaptam. Esse projeto continua aqui e algumas coisas que fizemos com esse projeto são importantes para gerar patentes também, nós mostramos que modificando a expressão de alguns desses genes a planta é capaz de acelerar o crescimento, produzir mais biomassa e mais semente. Então, nessa área de ciclo celular isso foi uma descoberta muito importante.

Na área ligada à biodiversidade nós mostramos que a variação genética e estrutura genética das populações de pau-brasil da Mata Atlântica, em especial na região de Cabo Frio, é muito diferente das outras, provavelmente devido ao clima que é bem diferente, as plantas de pau-brasil nessa região crescem em uma floresta seca, portanto são muito diferentes geneticamente. E na área de epigenética temos trabalhado principalmente com pequenos RNAs demonstrando algumas regulações importantes, principalmente em modelos de bactérias benéficas e patogênicas que trabalhamos, infectando milho e cana. Nós demonstramos que alguns micro-RNAs funcionam como um sensor de percepção dessa bactéria, se ela é benéfica ou patogênica. Se for patogênica, esses micro-RNAs são desligados permitindo que os alvos estejam presentes, que são proteínas de defesa, assim, esse sistema irá então combater essas bactérias. Se for bactéria benéfica que promove o crescimento e fixa o nitrogênio do ar ou sintetiza hormônios, esses micro-RNAs aumentam a sua concentração e os alvos diminuem e o sistema de defesa é desligado, permitindo que a bactéria infecte a planta.

 

PORTAL BIOQMED. Existe de certa forma uma crítica dos estudantes por alguns professores, por acreditarem que embora sejam excelentes pesquisadores, muitos não estão preparados para serem professores. Você encontrou desafios ao ter de ser ambos?

PROFESSOR PAULO. Eu acredito que sou melhor como pesquisador, mas se olhar para as minhas avaliações eu diria que mais que 80% diriam que sou um professor acima de bom. Mas acredito que existe um desafio para mim e para os alunos, porque o sistema de ensino é completamente obsoleto e isso tira um pouco do prazer de ensinar. Os alunos estão sempre com pressa e há também um excesso de conteúdo. Acredito que as pessoas aqui ainda não decidiram o conteúdo que o aluno deve saber. O ensino da graduação tem uma ênfase muito grande no conteúdo. Há pouca ciência, experimentação e pouco tempo para os alunos pensarem. Tudo isso dificulta o ensino, tanto para mim quanto para eles esse tempo demasiado em sala de aula não é muito bom.

Por isso me considero melhor como pesquisador, porque como pesquisador eu faço absolutamente tudo que eu quero e que gostaria de fazer, mesmo tendo o dinheiro como limitação. Mas como professor eu não faço o que gostaria de fazer, como reduzir a carga horária, porque ninguém aguenta mais de uma hora e meia de aula, nem eu nem os alunos. Optaria também para redução do conteúdo, oferecendo mais ferramentas on-line. Mas o sistema ainda é muito conservador. A maioria dos professores que conheço são bem avaliados e a maioria também sente uma certa frustração, mesmo que não confesse que o sistema de ensino está longe do ideal. Posso te dar um exemplo do meu filho que faz graduação nos EUA, ele tem seis horas de aula por semana, mas ele trabalha muito e estuda muito também. No entanto, não tem essa ênfase em sala de aula e essa enorme quantidade de conteúdo.

Acredito devem existir discussões dentro das universidades e dentro do MEC. Mas há ainda uma mentalidade coreana, em que os estudantes precisam estar quarenta horas dentro de uma sala de aula e quarenta horas trabalhando, e não acho que estamos formando profissionais melhores por isso. Não é uma situação confortável para ninguém e as universidades precisam discutir isso. Aqui no instituto essa discussão está ocorrendo, tem muita gente que pensa assim, mas ainda é difícil porque precisa passar pela universidade e pelo MEC. Existe essa percepção errada de que se o professor não dá aula demais ele não trabalha.

 

PORTAL BIOQMED. O  que te motiva a continuar fazendo ciência neste cenário que nos encontramos?

PROFESSOR PAULO. Considero que esse é um momento muito difícil, do jeito que vejo não irá mudar tão rápido, mas é o que eu gosto de fazer. Eu gosto de pensar com a minha cabeça, eu gosto de ter ideias e de poder executá-las, gosto do convívio com as pessoas e acredito que é rejuvenescedor conviver com pessoas mais jovens, às vezes mais imaturas e às vezes mais maduras. Mas é uma experiência que é fora da rotina, é muito interessante para sentir que formamos profissionais e que eles conseguiram empregos em uma boa universidade… São coisas que me motivam a continuar.

 

PORTAL BIOQMED. O que você apontaria como principal alvo de mudança na ciência atualmente?

PROFESSOR PAULO. O que deve ser mudado é como a sociedade percebe a ciência, o quão importante é a ciência na vida de todos e como ela deve ser melhor financiada do que é agora. O celular é ciência, a xícara é ciência, o lápis é ciência… tudo de alguma maneira é ciência! Alguém inventou. Mas como não há uma percepção muito forte aqui no Brasil de que ciência é extremamente importante, não percebem que se tem o alimento porque tem uma Embrapa por exemplo. Essa percepção pela política e pela sociedade para mim é o mais importante.

 

PORTAL BIOQMED. Como foi a apreciação sobre seu próprio processo de progressão e também de forma mais geral sobre o procedimento de progressão?

PROFESSOR PAULO. Achei que foi muito bom, eu fiz uma apresentação e contava com uma banca de alto nível. As perguntas foram muito boas, teve bastante debate e um pouco de perguntas sobre questões científicas. Quando se escreve um memorial, se conta a história da sua vida. Isso exige reflexão sobre a sua trajetória e o porquê de ter feito isso ou aquilo. Só tiveram aspectos positivos!