Publicado em 21/06/2017

Proteína MAGE-10 apresenta papel crítico em modelo de metástase

O carcinoma de células escamosas bucais, também conhecido como carcinoma epidermóide ou espino-celular, é um dos tipos de câncer mais incidentes mundialmente. Um dos principais fatores de risco para seu surgimento é o uso abusivo do tabaco. A origem dessa neoplasia maligna se dá no epitélio de revestimento da boca, provocando lesões ulceradas, nodulares ou vegetantes que se infiltram também para dentro dos ossos maxilares.

Em um recente estudo publicado pelo periódico científico Biochemistry and Biophysics Reports em 19 de abril deste ano e assinado pela aluna Bruna Mendonça e colaboradores, sob a orientação do Professor Franklin Rumjanek (IBqM), relatou-se uma alta expressão da proteína MAGE-10, que é um antígeno específico de melanoma localizada no núcleo celular. Estudos anteriores já mostravam que ela poderia influenciar na progressão tumoral. Já este estudo intitulado ”Suppression of MAGE-A10 Alters the Metastatic phenotype of tongue squamous cell carcinoma cells” mostrou como a alteração da expressão dessas proteínas em células escamosas da língua de carcinoma celular pode afetar o fenótipo metastático e regular a expressão de importantes moléculas de adesão epitelial, ativando por exemplo a expressão de E-caderina e a repressão N-caderina.

A família das proteínas MAGE é constituída por 12 genes que sofreram processos dinâmicos como duplicações, mutações e algumas pequenas deleções. E assim, ao longo da evolução, ocorreu a diversificação de suas isoformas. Sua estrutura secundária com domínios intrinsecamente desordenados confere a ela uma interação com diversos ligantes. Usando técnicas de q-rtPCR e Western Blot, os resultados mostraram que a supressão de MAGE-10 pode afetar a morfologia, o crescimento e a adesão celular de células tumorais em cultura.

MAGE-10 parece ter um papel em eventos como (i) desenvolvimento embrionário e também em aspectos relacionados a  (ii) progressão tumoral, como a transdução de sinais. Muito embora sua funcionalidade ainda não seja bem conhecida, sabe-se que a alta expressão dessas proteínas em tecidos cancerígenos pode ser usada como diagnóstico ou como uma forma de identificação de pacientes que estejam aptos para tratamentos com imunoterapia.

 

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O Prof. Franklin aceitou nosso convite para esclarecer algumas questões de seu trabalho. Confira a seguir!

 

PORTAL BIOQMED. Bom dia, Prof. Franklin! Queremos agradecê-lo por aceitar responder algumas questões de seu trabalho! De forma geral, embora a função da MAGE-10 não seja muito bem conhecida, ela é comumente associada a metástase. Como essa proteína está envolvida nos eventos bioquímicos e como ela consegue contribuir para a progressão tumoral?

PROFESSOR FRANKLIN RUMJANEK. Em relação a MAGE-10, que é a proteína mais expressa nessas células que estudamos, não se tem praticamente nenhuma informação funcional. Ela era usada como marcador de metástases para células do tipo melanoma, mas descobriu-se mais tarde que não são somente células de melanoma expressavam essa proteína mas também outros tipos de tumores. Nós começamos de frente para trás: sabíamos que havia muita proteína expressa e então decidimos verificar a possível função dela tentando abolir sua expressão. Assim, realizamos construções que inibem a tradução do gene através do uso  do sistema do hairpin, que é ligado à produção de RNA anti-senso à cadeia de RNA que será sintetizada e que, portanto, suprime especificamente a síntese desse gene.

Nesse trabalho publicado conseguimos detectar alguns detalhes fenotípicos dessa supressão e que no geral sugerem que essa proteína tem algum papel crítico nas questões de adesão, que são tão importantes para a metástase. Isso conseguimos ver principalmente medindo características que envolvem adesão, como migração e a ligação a uma matriz.

Utilizamos um ensaio para medir o nível da metástase, analisando a adesão da célula a uma matriz que produzimos numa placa e, quanto mais aderida a célula, mais difícil é que ela seja removida em processos de lavagem. Esse ensaio foi realizado metodicamente com a célula não inibida e com a célula knocked down, nos permitindo visualizar a quantidade de células que ficam ali aderidas. Assim, efetivamente se pôde saber como a adesão da célula afetou a matriz. Da mesma maneira, estávamos utilizando um modelo tridimensional no qual construímos esferoides que é normalmente aceito como um modelo mais realista em relação ao tumor do que o simples cultivo da célula. Esse modelo permite que a célula cresça em três dimensões, como aconteceria num tumor e, com isso, verificamos que fazendo o knocked down dessa célula se tem uma adesão realmente diminuída. Contudo, esse esferoide não é tão bem definido como na célula controle.

O knocked down dessas proteínas MAGE-10 parece afetar principalmente parâmetros de adesão celular, tanto à matriz como das células entre si. Medimos também a expressão das caderinas e de fato elas também estão de acordo com o que foi proposto em relação a adesão. Além do que foi publicado nesse estudo, também geramos resultados nos quais pesquisamos o efeito desse knock down na estrutura do citoesqueleto das células. Isso foi feito usando um marcador chamado faloidina que se liga especificamente à actina, que é um dos principais componentes do citosqueleto da célula. Com os resultados, vimos que de fato há uma diferença visível entre a célula controle e a célula com a proteína MAGE-10 suprimida. Ou seja, há algo muito mais desajustado nesse processo nas células que foram tratadas com esse silenciador. Infelizmente esses resultados não foram publicados junto com o que já tínhamos, mas é um resultado bonito que mostra que essa nossa hipótese está realmente consolidada.

 

PORTAL BIOQMED. A alta expressão nessas células é comum também para as outras proteínas dessa família? O que se sabe sobre essa família de proteínas?

PROFESSOR FRANKLIN. A gente não sabe. O que nós sabemos é que existem 12 componentes nessa família, mas ainda não se estudou essas proteínas com os mesmos parâmetros que abordamos aqui. Acompanho um pouco a literatura e, tanto quanto eu saiba, nosso trabalho está acrescentando uma informação nova em relação à função dela. Essa estratégia de começar de frente para trás é interessante porque é possível observar alguns parâmetros mediante a supressão específica, dentro da síntese dessas proteínas. Nós acreditamos que isso pode dar alguma luz quanto ao que acontece nos processos da metástase, que acredito que deve principalmente afetar a forma na qual as células aderem umas às outras. Então, em um tecido que é constituído por células aderidas (o fígado por exemplo), qualquer célula que se dissocie dali é imediatamente destruída pelo processo de anoikis, que é muito semelhante à apoptose. Ele é um programa que a célula tem de defesa ao próprio organismo, porque se houver uma célula solta ali, ao invés de se ligar a outro tecido qualquer como acontece na metástase, a célula é imediatamente destruída por esse programa. Agora, o que se sabe que acontece na célula metastática é que ela tem um mecanismo de resistência à anoikis, porque mesmo ela dissociada não passa pelo processo de apoptose, essa é portanto uma outra avenida de investigação: descobrir o que controla  e o que está desregulado nesse processo de anoikis. Uma das possibilidades é que as células migrem coletivamente na metástase, e não apenas células isoladas. As células isoladas provavelmente morrem também, mas se a células estiverem formando uma colônia de células invasivas provavelmente a própria adesão de uma à outra inibe esse processo da anoikis.

Eu gosto desse processo de adesão porque ele permite que se concentre o tipo de desregulação que pode estar acontecendo por meio de proteínas conhecidas do ponto de vista dos processos de adesão celular. O estudo da metástase é basicamente uma questão de se abordar o que acontece nas células dissociadas que permanecem viáveis. Porque se pensar também que essas células vão oportunamente colonizar um outro tecido distante, elas também precisam aderir a esse outro tecido. Então, teremos primeiramente uma transição de um tipo e depois da colonização terá  a volta daquele sistema ali, provavelmente então teremos uma transição  mesenquimal-epitelial, essa é uma proposta que temos.

 

PORTAL BIOQMED. Então a MAGE-10 é uma das proteínas mais importantes para adesão?

PROFESSOR FRANKLIN. Sim, eu não diria a mais importante, mas diria sim, ela é uma das mais importantes. Pelo que observamos, é possível atribuir a ela tal importância nas questões de adesão. O que de certa maneira surpreende é que, quando olhamos para a coleção de todas as proteínas dessa célula, vimos que a MAGE-10 estava muito mais expressa que as outras. Isso que nos chamou atenção e por isso despertou nosso interesse em estudá-la. Mas como poderíamos fazer isso? A única sugestão que me ocorreu foi de ir de frente para trás, se está muito expresso como analisaríamos a expressão dela? Bom, talvez se conseguíssemos suprimi-la poderíamos ver mudanças fenotípicas na célula: e nós conseguimos fazer isso mesmo!

 

PORTAL BIOQMED. E agora que vocês observaram alterações fenotípicas na célula, pode-se sugerir algo?

PROFESSOR RUMJANEK. Quanto a aplicação na medicina, no passado já se tentou realizar imunoterapia com anticorpos contra essa MAGE-10 e outras da família MAGE para saber se poderia funcionar como uma maneira de terapia para o câncer. No entanto, não se obteve resultados satisfatórios. Provavelmente essas proteínas talvez tenham uma localização celular que torna a célula impermeável a ação da imunoglobulina. Se ela tem uma localização nuclear, primariamente a imunoglobulina não teria ação. A expressão dela é usada como diagnóstico sim, mas se então diagnostica a alta expressão dela, isso significa que está em um processo metastático que tem um controle mais difícil. Com a expressão dela se pode acompanhar o estágio do câncer. No nosso caso aqui, é claro que se pudermos ter alguma aplicação será maravilhoso. Mas a princípio temos uma certa preocupação prioritária em termos de funcionamento, em entender o que é o câncer e a metástase. A linha principal dos nossos projetos é entender quais são os processos da tumorigênese e certamente entender a metástase. O que acontece? O que está desregulado? Temos vários projetos em nosso laboratório que lidam com essa pergunta sobre entender os mecanismos bioquímicos desses processos.

Nós podemos seguir fazendo uma série de análises, por exemplo, podemos perguntar agora quais são os parceiros da MAGE do ponto de vista de outras proteínas celulares que participam do processo, será que elas interagem entre si? Por que a MAGE na célula metastática é superexpressa? Quem controla a expressão dela? Ainda temos muitas perguntas que podem decorrer desse trabalho.

 

PORTAL BIOQMED. Vocês até responderam sobre quem estaria interagindo com ela quando viram que havia diferença na expressão das caderinas…

PROFESSOR FRANKLIN. Exatamente! Ali já reconhecemos algumas, obviamente são alguns resultados que demonstram uma parcela da verdade. Podemos ainda aprofundar e ver como com essa proteína se liga aos genes, aos promotores dos genes dessas integrinas. Pode-se fazer uma série de perguntas mais específicas que foram iniciadas nesse trabalho no sentido de mostrar possíveis parceiros de interação da MAGE. Então, como é feita exatamente a regulação da expressão dessas proteínas? É uma pergunta que poderia gerar outros experimentos e resultados.

 

PORTAL BIOQMED. O senhor pode explicar para gente a diferença entre esses diferentes estágios de evolução do câncer?

PROFESSOR FRANKLIN. Em relação à  células (chamamos isso de progressão tumoral) existem linhagens que são tumorais simplesmente mas não metastáticas e linhagens tumorais metastáticas. Isso pode ser reproduzido no laboratório selecionando linhagens que possuem essa propriedade. No caso dessas células, conhecidas como SCC9 (são células comerciais), foram injetadas no camundongo e assim migraram para o linfonodo, depois foram extraídas do linfonodo, selecionadas e posteriormente injetadas em um novo camundongo. Observa-se então que elas vão chegar no linfonodo mais rapidamente, dessa maneira vão sendo extraídas a LN1, LN2 e LN3… É “LN” de linfonodo. A LN2 é mais agressiva no ponto de vista de potencial metastático que a LN1, que por sua vez é mais agressiva que a SCC9. Foi assim que trabalhamos com essas células.

Algo que considero importante chamar atenção é que, ao invés de progressão tumoral (que é uma ideia mais lamarckista), o que está acontecendo é uma seleção darwiniana dentro da população de células tumorais daquelas que já apresentam maior agressividade. Assim, observamos que a célula não está progredindo. Essa migração para o linfonodo é uma forma de seleção de clones heterogêneos que estavam presentes na SCC9 e que na realidade é algo que devemos estar sempre pensando… O tumor é heterogêneo, logo, não se tem nele células idênticas mas sim uma população de células heterogêneas, então, naquele meio encontraremos células metastáticas também.

Uma das maneiras de como eu imagino a metástase é de não considerar que a célula individual vai se tornando metastática como se pudesse dizer ”estou sentindo que quero e vou virar metastática” e simplesmente acontece. Não é assim. Acredito que naquele grupo já existem células que são metastáticas. Assim, o que acontece é que se está selecionando essas células presentes no meio. A maneira como encaro a metástase, e é algo que pode ser aceito ou não, é a de imaginar que a metástase pode acontecer porque a célula presente no tumor não está ajustada ao tumor e aquelas condições são adversas a vida dela e por isso ela sai dali. Desta forma, se a célula tem o que é exigido para sobreviver fora do tumor, nessas condições ela vira metastática.

Imagine assim, se há um tumor em um ambiente que varia de aeróbio (fora do tumor) à anaeróbio (dentro do tumor) e tiver células que não estão ajustadas a este sistema elas podem se dissociar do tumor caso elas tenham essa propriedade, isso com uma pequena população, porque grande parte delas irá morrer, como de fato morrem. Sabemos que 90% delas morrem na circulação, isso porque elas vão entrar em um ambiente muito diferente do tumor, mas as que estão adaptadas àquelas circunstâncias na circulação ou de migração pelos vasos sanguíneos ou linfáticos, com capacidade de colonizar um novo tecido, essas sim irão sobreviver. E são uma minoria, mas basta chegarem no tecido que irão se dividir. Desta maneira, vejo a evolução da metástase como um processo seletivo e não um processo de progressão. Assim, terão dois tumores, o tumor primário (que é o original) e um tumor secundário ou metastático que se originou daquele tumor. O tumor maligno é o que sofre metástase (o segundo), o câncer. E o câncer é chamado de tumor maligno, ele quem produz problemas. Se há um tumor primário ele é até tratável com quimioterapia, radioterapia ou cirurgia, por estar localizado. Agora, na metástase geral os órgãos são afetados, neste caso não se pode operar nem tratar porque está disseminado.

Outra pergunta importante é a do porquê alguns tumores têm metástases preferenciais, alguns vão para o osso, outros para o cérebro ou pulmão. É uma pergunta que pode salvar muitas vidas! Se soubermos o que determina essa migração, ou tropismo como chamam, teremos então coisas muito interessantes envolvidas. Existe quem acredite que os exosomas trilham esse caminho, mas para mim isso não responde nada. O exosoma é uma microvesícula que sai do tumor e vai se ligar a uma célula de um outro tecido, com isso o tumor reconhece essa trajetória e vai até lá. É como um líder que vai na frente na guerra e os soldados atrás. Muita gente trabalha com isso, inclusive aqui no IBqM. Eu só não entendo como isso acontece, na minha visão isso não responde à pergunta do tropismo. Como o exosoma exerce esse tropismo e como ele deixa um rastro que será seguido pela célula metastática? Teria de deixar várias setas dizendo para onde a célula deve ir… É algo de difícil concepção.

 

PORTAL BIOQMED. Qual relação observada entre a estrutura e comportamento biológico da MAGE-10?

PROFESSOR FRANKLIN. Isso é um outro aspecto e considero muito interessante que é o seguinte: imagine que a célula metastática (e isso se aplica também a célula tumoral) é plástica do ponto de vista de exibir um fenótipo que é diferente da célula normal. Ela possui outros níveis de regulação e está capacitada com níveis-extra de regulação. Como se pode conseguir isso? Muitos cientistas invocam as mutações e ganho de função. Uma mutação geral leva as perdas de função, a mutação às vezes inviabiliza um gene mas também pode-se ter ganho de função, embora seja mais raro. Como o perfil de mutações às vezes não é muito mantido, não necessariamente consegue correlacionar com uma função nova. Por outro lado, deve-se imaginar que as proteínas que controlam várias vias diferentes, como por exemplo o fator de hipóxia HIF, afetam outras proteínas que também estão no meio de outras vias diferentes, como a p53.

Sabe-se que a proteína MAGE-10 tem parte da sua estrutura desordenada, chamam de domínios intrinsecamente desordenados, o que a torna passível de interações com outras proteínas. São interações talvez não tão fortes quanto aquelas determinadas por certos domínios. Porém essas interações são múltiplas, então é conferido um número maior de interações a essas proteínas. Assim, eu imaginei também que a metástase pode resultar de um acúmulo de proteínas que tenham esses domínios intrinsecamente desordenados e que conferem a essas células uma plasticidade maior, podendo com essa propriedade fazer ligações que as outras não fazem. Por isso, um dos meus interesses (e ainda não fiz nenhum experimento nesse sentido) é determinar globalmente se essas células metastáticas têm um número maior ou menor de proteínas com domínios estruturalmente desordenados. Elas têm propriedades diferentes, se é por mutação a gente não sabe, mas por domínios desordenados talvez. É difícil visualizar isso globalmente, conseguimos ver isso por ressonância por exemplo, onde se tiver uma proteína pura é possível analisar a estrutura dela e ver quais são os domínios desordenados, é algo relativamente simples. Mas eu quero ver a célula viva, o cômputo geral das proteínas desordenadas ali é maior que na célula metastática ou menor? Isso seria uma nova visão geral sobre o que pode existir nessas células.

Recentemente aconteceu um evento que abordou esse assunto dessas proteínas desordenadas, teve um apresentador chamado Duncan que estava fazendo essa comparação do ponto de vista de espécies, gêneros e ordens. Ele comparou arqueas com bactérias, eucariotos, metazoários e organismos mais complexos. Ele viu que o número de desordenação vai aumentando com a complexidade do organismo. Eu achei isso muito interessante porque a evolução é resultado de um número maior de interações: se aumenta a complexidade em função das interações. Se isso é verdade para a evolução, talvez seja verdade também para a célula tumoral! Talvez a célula tumoral seja uma célula em processo de evolução. Ainda não está bem adaptada porque mata o hospedeiro, mas quem sabe se houver um ajuste dessas células com o organismo teríamos um organismo mais bem adaptado?

O curioso dessa história toda e que eu estava até comentando com colegas é que o processo de evolução depende de desordem. Eu concordo inteiramente com isso. Se estiver tudo certinho e bonitinho, o sistema biológico não vai poder evoluir, já que tudo está muito ajustado. A bactéria é muito bem ajustada e permanece em todos os nichos da terra, mas a complexidade nela teve um limite. Para que surgissem novas formas mais complexas houve necessidade de uma plasticidade maior que pode ter resultado desses domínios não ordenados. É o caso do tumor, acredito eu: ele pode ser considerado um tipo de evolução celular e talvez estejamos presenciando uma processo evolutivo. Eu até criei uma vez o personagem de um super-herói, mas acho que alguém já teve essa ideia também, que é o Cancer-man; ele seria um cara indestrutível.

 

PORTAL BIOQMED. Atualmente, o avanço tecnológico e a onda massiva de informações instantâneas são eventos que marcam o século XXI. Isso tem impactado e remodelado a sociedade de forma irrepreensível, estão todos conectados 24hs. Em relação às crianças e adolescentes que estão desenvolvendo ainda o interesse pelo aprendizado em questões científicas, você também consegue enxergar essa conexão? Todas essas ferramentas e redes que conectam o mundo contribuem para o estímulo do interesse científico ou tornam a visão deles mais superficial?

PROFESSOR FRANKLIN RUMJANEK. Acredito no seguinte: hoje em dia temos uma quantidade enorme de informações, dados gigantescos obtidos por ferramentas cada vez mais sofisticadas e abrangentes. Realmente temos isso, é verdade. E isso criou uma represa de informações porque temos muitos, muitos e muitos dados, mas o processamentos dos dados é que virou um marca-passo. Em relação às crianças, acredito que será muito difícil e que sempre foi, em ciência, associar as informações em uma hipótese coerente. Essa associação que é trabalho de gênio. Por exemplo, se tem muitos dados aqui agora, o indivíduo pode então simplesmente descrever os dados e dizer o que está vendo no genoma ou no transcriptoma, que existem tantos genes assim e tudo mais. Mas se parar por aí, na verdade não está indo a lugar algum. Mas pegar tudo isso, juntar e tentar encaixar numa visão completa da célula e como ela está evoluindo e evoluiu até então; como isso representa uma maneira de ela manter sua homeostase em determinado meio ambiente: esse é o trabalho associativo.

Quando eu estava na graduação e comecei a estudar metabolismo, eu podia descrever as vias metabólicas como um papagaio. De repente eu percebi, naquele mesmo momento da graduação, que está tudo acontecendo ao mesmo tempo. Isso me deu um estalo e eu entendi que aquele ciclo de Krebs é um ciclo que está compartimentado na mitocôndria e que está interagindo com as vias metabólicas com um sentido totalmente homeostático, com produção de energia, auto-regulação… Esse sistema todo junto confere então uma rede autorregulável. Ficou então muito mais fácil entender como a célula funciona. Eu diria que, para a criança que está sendo exposta a uma quantidade enorme de informações, ela pode simplesmente ficar satisfeita do que sai do ponto de vista de uma informação, como pode também inquirir e perguntar mais sobre o que significa aquilo. Neste último caso, isso exigiria um trabalho intelectual mais exaustivo e refinado.

Hoje em dia temos o pessoal da informática que uso isso para vários fins específicos, como produzir divertimentos ou realizar comunicações, sem que na realidade se coloque como parte do todo. Então ficamos totalmente absorvidos naquilo, dando a impressão que estamos no último modelo, na crista da onda da tecnologia… mas na realidade somos apenas meros usuários. Acho então que a diferença é o seguinte: você pode simplesmente ser um usuário de um dispositivo que é misterioso para muita gente ou pode se familiarizar com aquele tipo de metodologia, aplicando-a e aprimorando-a de outras maneiras. A reação que a pessoa terá mediante a essa tecnologia vai depender da sua curiosidade. O que eu vejo é que a grande maioria das pessoas é usuária. E a tecnologia vem alienando essas pessoas.

A aplicação da tecnologia ajuda muito na medicina, em métodos diagnósticos, ressonância, dependemos de processamento de informações que sozinhos não conseguimos fazer. Não se consegue sozinho transformar um espectro de ressonância em imagem, mas as máquinas conseguem fazer isso e transformar em algo que os médicos consigam entender. Isso é ótimo, estar com um método não invasivo que produz informações relevantes. Mas também pode ter um lado que aliena as pessoas, que é o caso da comunicação hoje em dia. Por alguma razão misteriosa, damos mais prioridade à pessoa que está querendo se comunicar conosco via celular do que a pessoa que está do nosso lado. Isso é terrível, mas é algo muito propagado e distribuído. Se pensarmos na criança, isso talvez seja até compreensível porque se ela não consegue fazer parte da conversa, vai buscar alguma distração. Para a comunicação, a tecnologia visivelmente facilitou muito. Mas eu também já vivi em um mundo em que esses aparelhos não eram prioridade e não me lembro de ter sofrido muito. O pessoal entra em pânico quando o celular está descarregando. Essas coisas acredito que sejam novidades, mas que não necessariamente signifiquem progresso.

Obviamente, quando pego um trabalho que foi publicado há 10 minutos, ele é muito diferente do que o que foi publicado anos atrás; antes esperávamos muito mais para ter acesso a uma publicação. Isso tudo, eu acho fantástico! Mas o lado da comunicação está se revelando um fenômeno que considero no mínimo curioso. Se eu fosse sociólogo, talvez estudaria isso. Não sei se um dia as pessoas vão cansar e reverter. Acho tão bom conversar com as pessoas, além disso se tem as expressões e elas acompanham a comunicação com tudo o que os humanos conseguem usar para se expressarem. Às vezes estou no engarrafamento, que é uma das piores coisas que se podem acontecer, porque você fica ali fazendo nada, perdendo tempo, gastando gasolina, respirando em um ambiente poluído… E o que tento, dentro do possível, é pensar em coisas que me intriguem. Acho legal fazermos como diz o Sherlock Holmes e exercitarmos nossas pequenas células cinzentas! O grande problema dos celulares é amortecer sua intelectualidade. Tanto celulares como mídias valorizam de forma excessivo aquilo que é superficial. Uma outra coisa que me perturba é que você fica muito ”eu, eu, eu…”. É o culto ao indivíduo. Sem mencionar a leitura que está sendo penalizada por causa desses avanços; as pessoas leem muito menos hoje. E as respostas que as pessoas buscam tem de ser sempre imediatas, elas não buscam os porquês. A cultura infelizmente está sendo penalizada, os clássicos… Tenho acompanhado isso com certo interesse e também com um certo pezar.

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Créditos da imagem: Larissa Haerolde, Francisco Prosdócimi e Freepik

Recomendamos fortemente a leitura do artigo  ”Suppression of MAGE-A10 Alters the Metastatic phenotype of tongue squamous cell carcinoma cells” no site do periódico através do endereço eletrônico: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S240558081630348X

Formato para citação:

* Bruna dos Santos Mendonça, Michelle Agostini, Iara Gonçalves Aquino, Wagner Barbosa Dias, Débora Campanella Bastos, Franklin D. Rumjanek, Suppression of MAGE-A10 alters the metastatic phenotype of tongue squamous cell carcinoma cells, Biochemistry and Biophysics Reports, Volume 10, July 2017, Pages 267-275, ISSN 2405-5808, https://doi.org/10.1016/j.bbrep.2017.04.009.

 

Por Larissa Haerolde e Francisco Prosdocimi para o portal BIOQMED.